quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Divagações quotidianas

Da janela do meu quarto vou observando o movimento descompassado dos transeuntes apressados que, alheios ao meu olhar curioso, indiferentes a tudo o mais que os cerca, percorrem o trajecto de todos os dias, prisioneiros a uma rotina que lhes (não) pertence, escravos de uma vida que é a sua. Tudo isto me entedia, me enfada, o vislumbre da melancolia e do cansaço estampados em rostos anónimos, iguais na repulsa ao quotidiano que os une. Um sentimento de nojo por mim comungado abate-se sobre toda a cidade, suja, cinzenta como as vidas que arrasta, putrefacta na sua palidez diurna.
Ah, sentir o meu corpo embalado, acariciado pelo sopro duro do vento! Sentir o cheiro salgado do mar que me perturba, liberta desta opressão dormente! Anseio pela paz milenar das noites nuas, o silêncio virginal das madrugadas regadas a orvalho e solidão.
Mas quando desperto deste devaneio a que me entrego, apenas vejo, de novo, a indiferença sorumbática de toda a gente, o amolecimento perene de todos os dias, a que, lentamente, vou cedendo, até ao fim.
(21/07/2009)
Poentes Mortos

Nada mudou, meu amor.
A tua voz, anunciando a madrugada,
Arrebata ainda, num lamento de dor,
Meu corpo nu, minha alma desmaiada.
Morrem em ti poentes,
Desfeitas as ilusões e cansaços
De tempos remotos, diferentes,
A que me acorrentam teus abraços.
É absurdo este viver,
Este sonho descomposto,
Que me embala sem eu querer
Encobrindo o teu rosto.
E assim prossigo para sempre,
Numa existência condenada
Por teu riso demente,
Por tua ânsia insaciada.
(08/07/2009)
Chocolate Branco, Chocolate Negro

Não te perdoo por me teres iludido, dares-me esperanças vãs quando eu ardia em paixão por ti.
Não te perdoo por me teres enganado, enrolado na tua perversa teia de sedução e hipocrisias.
Não te perdoo todos os olhares, os sorrisos carregados de veneno e malícia.
Não te perdoo o teres.me esquecido, abandonado quando eu mais necessitava de te possuir, suspender eternamente o teu corpo abraçado no meu, o teu desejo fugaz, carnal, que me embriagava de amor.
Não te perdoo tudo o que poderímos ter sido e no que nos tornámos, meros desconhecidos do acaso.
Essencialmente não te perdoo por nunca me teres amado.
(16/05/2009)
"Corpus"

Chama ardente, desejo vibrante que nos consome. Lânguidos sorrisos, olhares incandescentes, tumultuoso deleite. Vícios corroídos pela dor. O meu corpo enlaçado em ti no leito da perdição. O silêncio penetra-me, incessantemente. O luar recortado numa negra tela adquire contornos dementes. Lágrimas, risos sufocados mitigam a dor.
Os sentidos esfumam-se e desvanecem (que saudoso tocar!). Flutuamos imateriais, despojados de preconceitos. Renegamos a mortalidade, substância transcendente, num limiar perene, intemporal. Num frémito carnal, o teu corpo brota seiva e suor.
Timidamente, estremeço nesta embriaguez desmedida, num êxtase desconcertante. Despertam as horas impuras, sombras e reflexos mortos. Cessam os murmúrios, permanecem os toques, o eco do que fomos, (somos ainda?!). Vai-se o calor, o sonho, o instante: prevalece o desespero, a insónia, a eternidade. Permaneço eu, nua, frágil, só.
(24/08/2008)
Estilhaços de Saudade

Amor. Madrugada que, lentamente, amanhece, despertando-me com os dedos leves que me embalam e me tocam. Louca andorinha frágil, que esvoaça em mim num murmúrio surdo, doce restolhar de asas. Lanças cravadas no meu peito, dor aguda e violenta que me agita, sangue ressequido brilhando de dor e paixão.
Ouço ainda no meu íntimo a tua voz imponente. És a melodia de meu corpo, receando o pôr-do-sol que existia outrora e, efémero, se foi, partindo com o vibrar do teu canto. Eras chama em mim, dançante e trémulo, que a aragem de um sopro gélido apagou. Derradeiro este dia que cessa, folha revolta pelo vento, ramagem ondulante. Promessa e embalo crepuscular, foste parte do meu ser, veneno letal, súbita mentira e verdade. Não me pertences, não és de parte alguma, peregrino errante por mim surpreendido. Assombram-te memórias e destroços de uma vida, cidade esquecida e por ti adulterada.
Como me dói esta lembrança tão ténue de ti! Ardo ainda em paixão, estremeço ligeiramente na derradeira sombra do teu calor, do teu rasto inebriante. Foste-te, mas ficou-me o travo do teu odor, do teu ligeiro sorriso, dos teus cabelos desgrenhados. Pronuncio, agora, angustiantemente, o teu nome da perdição, que me fere a cada instante, talvez numa réstia de saudade, fragmento de memória que me sobrou da essência de todo o teu ser. Amor eras tu, deixaste em mim um espaço vazio, sede insaciável de te possuir. Como me corrompes, como me magoa agora invocar-te! Só me ficaste tu, mísera recordação impiedosa, só me resta o eco do teu grito, rosa insegura que murchou, pétala por pétala chorada!
(21/04/2008)
Último Adeus

Já faz oito anos. Ainda me recordo do teu sorriso desmaiado, aquele que esboçavas sem compromissos, nos momentos de inércia e ócio que pensávamos perdurarem para sempre. O odor a alfazema e café permanece em mim, insistentemente, forçando-me a relembrar de ti a cada instante. Por vezes, quando acordo sobressaltada a meio da noite, ainda espero que me estreites contra o teu peito, me aconchegues o lençol e me acaricies o cabelo.
A verdade é que ainda não te perdoei por me teres abandonado, entregue à crueldade da vida sem eu saber como a enfrentar. No entanto, como passou tanto tempo, resolvi escrever-te, nem sei bem porquê, talvez para cessar esta dor incessável, secar as lágrimas que me teimam em escorrer pelo rosto, quando acordo a meio da noite e tu não estás.
Amei-te incondicionalmente, e os momentos mais felizes passei-os contigo. Sei que não fizeste por mal, não me privaste de todos os sonhos e brincadeiras pueris propositadamente. Foste apenas uma vítima, vítima do destino e da vida que, ironicamente, não te deixou viver.
No final, quero somente agradecer por te ter conhecido. À noite, quando estiver a chorar, sei que tenho motivos para estar feliz, porque, no fundo, nunca me abandonaste.
(19/11/2007)
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