
Amor. Madrugada que, lentamente, amanhece, despertando-me com os dedos leves que me embalam e me tocam. Louca andorinha frágil, que esvoaça em mim num murmúrio surdo, doce restolhar de asas. Lanças cravadas no meu peito, dor aguda e violenta que me agita, sangue ressequido brilhando de dor e paixão.
Ouço ainda no meu íntimo a tua voz imponente. És a melodia de meu corpo, receando o pôr-do-sol que existia outrora e, efémero, se foi, partindo com o vibrar do teu canto. Eras chama em mim, dançante e trémulo, que a aragem de um sopro gélido apagou. Derradeiro este dia que cessa, folha revolta pelo vento, ramagem ondulante. Promessa e embalo crepuscular, foste parte do meu ser, veneno letal, súbita mentira e verdade. Não me pertences, não és de parte alguma, peregrino errante por mim surpreendido. Assombram-te memórias e destroços de uma vida, cidade esquecida e por ti adulterada.
Como me dói esta lembrança tão ténue de ti! Ardo ainda em paixão, estremeço ligeiramente na derradeira sombra do teu calor, do teu rasto inebriante. Foste-te, mas ficou-me o travo do teu odor, do teu ligeiro sorriso, dos teus cabelos desgrenhados. Pronuncio, agora, angustiantemente, o teu nome da perdição, que me fere a cada instante, talvez numa réstia de saudade, fragmento de memória que me sobrou da essência de todo o teu ser. Amor eras tu, deixaste em mim um espaço vazio, sede insaciável de te possuir. Como me corrompes, como me magoa agora invocar-te! Só me ficaste tu, mísera recordação impiedosa, só me resta o eco do teu grito, rosa insegura que murchou, pétala por pétala chorada!
(21/04/2008)

Tinha mesmo saudades de te ler.
ResponderEliminarZita*