segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Divagações quotidianas


Da janela do meu quarto vou observando o movimento descompassado dos transeuntes apressados que, alheios ao meu olhar curioso, indiferentes a tudo o mais que os cerca, percorrem o trajecto de todos os dias, prisioneiros a uma rotina que lhes (não) pertence, escravos de uma vida que é a sua. Tudo isto me entedia, me enfada, o vislumbre da melancolia e do cansaço estampados em rostos anónimos, iguais na repulsa ao quotidiano que os une. Um sentimento de nojo por mim comungado abate-se sobre toda a cidade, suja, cinzenta como as vidas que arrasta, putrefacta na sua palidez diurna.
Ah, sentir o meu corpo embalado, acariciado pelo sopro duro do vento! Sentir o cheiro salgado do mar que me perturba, liberta desta opressão dormente! Anseio pela paz milenar das noites nuas, o silêncio virginal das madrugadas regadas a orvalho e solidão.
Mas quando desperto deste devaneio a que me entrego, apenas vejo, de novo, a indiferença sorumbática de toda a gente, o amolecimento perene de todos os dias, a que, lentamente, vou cedendo, até ao fim.

(21/07/2009)

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